O número de empresas em recuperação judicial no Brasil cresceu 65,8% em três anos, em meio a um cenário de juros elevados, crédito restrito e dificuldades para refinanciar dívidas. Ao fim do segundo trimestre de 2026, 6.341 empresas estavam em recuperação judicial, contra 3.823 no mesmo período de 2023.
Os dados são do Monitor RGF-BIZDOC, levantamento especializado em insolvência e reestruturação empresarial no país.
A pressão financeira atinge diferentes setores, mas o agronegócio aparece atualmente como um dos principais focos de deterioração, seguido por transporte, logística e comércio.
Selic continua em 14% ao ano
Um dos principais fatores apontados para o aumento das dificuldades financeiras é o custo do crédito.
O Comitê de Política Monetária (Copom) reduziu a taxa Selic para 14% ao ano em 5 de agosto, dando continuidade ao ciclo de cortes iniciado anteriormente. Apesar da redução, os juros permanecem em patamar elevado para empresas que precisam financiar capital de giro, estoques, investimentos ou renegociar dívidas.
A Selic é a taxa básica da economia e influencia diretamente as demais taxas cobradas em empréstimos e financiamentos.
Dados citados no levantamento mostram que o custo do capital de giro empresarial, que estava abaixo de 11% ao ano em 2020, chegou a cerca de 23% em 2026.
O efeito aparece também na inadimplência. A parcela de empresas inadimplentes passou de aproximadamente 1,5% em 2020 para 4% neste ano.
Agro registra avanço de 66% em apenas um ano
O agronegócio apresenta uma das situações mais delicadas.
O número de empresas do setor em recuperação judicial avançou aproximadamente 66% nos 12 meses encerrados no segundo trimestre de 2026, chegando a cerca de 1.263 empresas.
Segundo o Monitor RGF-BIZDOC, aproximadamente 26 de cada mil empresas do agronegócio atualmente utilizam o instrumento de recuperação judicial.
Entre os fatores que pressionam produtores e empresas rurais estão o custo elevado do crédito, dificuldades para acessar novas linhas de financiamento, queda nos preços de algumas commodities, alta dos insumos e perdas de produção provocadas por condições climáticas adversas.
A cadeia da soja concentra parcela significativa dos casos, com forte presença de empresas localizadas no Centro-Oeste.
A recuperação judicial passou a ser utilizada com maior frequência pelo setor rural nos últimos anos, especialmente depois das mudanças legais que ampliaram as condições para produtores rurais recorrerem ao mecanismo.
Transportes e comércio também sentem pressão
O problema não está restrito ao campo.
Na comparação dos últimos 12 meses, o segmento de transporte e logística registrou crescimento de aproximadamente 24% nas recuperações judiciais, enquanto o comércio apresentou alta próxima de 22%.
Dentro do setor de transportes, 76% das empresas em recuperação estão ligadas ao transporte rodoviário de cargas, atividade diretamente impactada por custos de combustível, manutenção, financiamento de veículos e margens apertadas.
No comércio, os problemas são agravados pelo crédito caro, redução da capacidade de consumo das famílias e concorrência crescente das plataformas digitais.
Varejo soma quase mil empresas em recuperação
O número de varejistas em recuperação judicial passou de 819 em junho de 2025 para 986 em junho deste ano, crescimento de 20,4%.
Apesar disso, especialistas destacam que muitas pequenas empresas do comércio nem sequer chegam à recuperação judicial. O procedimento possui custos e complexidade que fazem com que pequenos negócios, em muitos casos, simplesmente encerrem suas atividades quando perdem capacidade financeira.
O caso mais recente de grande repercussão foi o Grupo Casas Bahia, que entrou com pedido de recuperação judicial envolvendo R$ 17,3 bilhões em dívidas.
A companhia atribuiu parte das dificuldades ao aumento dos custos financeiros, restrição ao crédito, pressão sobre o consumo e necessidade de reorganização de passivos.
Recuperação judicial não significa falência
Apesar do crescimento dos pedidos, recuperação judicial e falência são procedimentos diferentes.
A recuperação é um mecanismo previsto em lei para empresas em dificuldade financeira reorganizarem suas dívidas e negociarem com credores, buscando preservar as operações, empregos e atividade econômica.
O objetivo é permitir que uma empresa economicamente viável ganhe tempo para apresentar e executar um plano de reestruturação.
A recuperação judicial, porém, não resolve automaticamente problemas estruturais. Se a empresa continuar sem geração suficiente de caixa ou não conseguir implementar o plano negociado com os credores, a crise pode persistir.
Brasil chega a recorde, mas ritmo dá sinais de desaceleração
Embora o total de 6.341 empresas em recuperação judicial seja o maior já registrado no núcleo acompanhado pelo levantamento, a velocidade de crescimento diminuiu no primeiro semestre.
Entre janeiro e junho de 2026, o estoque de empresas em recuperação aumentou 6,2%, contra 7,3% no primeiro semestre de 2025. Em período anterior comparável, a expansão havia chegado a 14,1%.
O movimento ainda não representa uma reversão consolidada.
Com a Selic em 14% ao ano e o crédito continuando caro, empresas mais endividadas permanecem expostas a dificuldades para refinanciar compromissos e manter capital de giro.
O comportamento dos juros, da atividade econômica e da disponibilidade de crédito nos próximos meses será determinante para saber se o número de empresas em recuperação começará a estabilizar ou continuará avançando.







