Um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), José Maria de Almeida, o Zé Maria, afirmou que trabalhadores metalúrgicos do ABC paulista que durante décadas apoiaram Luiz Inácio Lula da Silva estariam migrando eleitoralmente para Flávio Bolsonaro (PL).
Atual dirigente do PSTU, Zé Maria fez a declaração durante participação no Podcast 3 Irmãos, em uma conversa com José Genoino, ex-presidente nacional do PT e outro nome histórico da esquerda brasileira.
O diálogo ocorreu antes do primeiro turno da eleição presidencial, realizado em 4 de outubro, mas ganhou forte repercussão nas redes sociais nos últimos dias.
Segundo Zé Maria, trabalhadores que tradicionalmente constituíram uma das bases eleitorais e políticas de Lula demonstrariam atualmente insatisfação com o governo.
“Os mesmos metalúrgicos que votaram no Lula a vida inteira vão votar hoje no Flávio”, afirmou durante o programa.
Zé Maria atribui mudança à decepção com governo
Durante a conversa, Zé Maria rejeitou a ideia de que uma eventual aproximação dos trabalhadores com a direita pudesse ser explicada simplesmente por falta de compreensão política.
Na avaliação do dirigente do PSTU, o principal motivo seria a frustração com o governo Lula.
Ao discutir por que trabalhadores historicamente ligados ao petismo poderiam mudar o voto, Zé Maria argumentou que existe uma cobrança sobre resultados das administrações comandadas pelo PT ao longo dos anos.
A avaliação, no entanto, é política e pessoal de Zé Maria.
Não foi apresentada no programa uma pesquisa específica entre trabalhadores metalúrgicos que comprove qual percentual da categoria pretende votar em Flávio Bolsonaro no segundo turno.
Genoino reconhece momento delicado para esquerda
José Genoino também participou do debate e demonstrou preocupação com o atual cenário eleitoral.
O ex-presidente do PT afirmou que o campo progressista atravessa um momento delicado e destacou os riscos políticos de aprofundar publicamente determinadas críticas internas em meio à disputa presidencial.
A conversa chamou atenção especialmente pelo peso simbólico do ABC paulista para a história de Lula e do próprio Partido dos Trabalhadores.
Foi no sindicalismo metalúrgico da região que Lula ganhou projeção nacional nas décadas de 1970 e 1980, antes da fundação do PT.
Resultado de São Bernardo exige cautela com afirmação
Apesar da declaração de Zé Maria, os dados eleitorais disponíveis não permitem concluir que os metalúrgicos do ABC tenham, de maneira majoritária, abandonado Lula.
Em São Bernardo do Campo, município considerado um dos principais berços políticos do presidente, Lula terminou o primeiro turno à frente de Flávio Bolsonaro.
O candidato do PT recebeu 215.232 votos, correspondentes a 46,77% dos votos válidos.
Flávio Bolsonaro teve 192.478 votos, equivalente a 41,83%.
Os dados mostram o comportamento do conjunto do eleitorado do município, mas não permitem separar os votos por profissão.
Portanto, não é possível afirmar a partir do resultado das urnas quantos metalúrgicos votaram em Lula ou em Flávio.
Declaração ganha repercussão no segundo turno
A fala voltou a circular justamente no momento em que Lula e Flávio Bolsonaro disputam o segundo turno da eleição presidencial.
Por envolver uma categoria historicamente associada à trajetória política do presidente e à fundação do PT, a declaração de Zé Maria passou a ser utilizada no debate eleitoral sobre possíveis mudanças na composição do eleitorado brasileiro.
A eventual migração entre os metalúrgicos, entretanto, permanece como uma avaliação feita por Zé Maria e não como um movimento estatisticamente comprovado até o momento.






