O Brasil chega à eleição presidencial de 2026 diante de um cenário econômico considerado decisivo para os próximos anos, marcado pelo aumento das tensões comerciais com os Estados Unidos, preocupação com as contas públicas e mudanças no fluxo internacional de investimentos.
A avaliação é do estrategista global Ruchir Sharma, chairman da Rockefeller International, fundador da Breakout Capital e colunista do Financial Times. Em entrevista à BBC News Brasil, ele classificou a eleição brasileira como possivelmente uma das mais importantes do mundo em 2026 e alertou que o país tem pouca margem para cometer erros na política fiscal.
Na avaliação de Sharma, o cenário ganhou ainda mais peso com a decisão do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de impor uma tarifa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros.
A medida entrou em vigor em 22 de julho e ampliou as tensões comerciais entre os dois países.
Para o estrategista, porém, o impacto direto das tarifas pode ser menor do que o percentual anunciado sugere. Segundo ele, a preocupação maior está nos efeitos indiretos, principalmente sobre a entrada de investimentos estrangeiros e na relação política e comercial entre Brasil e Estados Unidos.
Eleição brasileira pode influenciar investidores
Sharma avalia que investidores internacionais acompanham com atenção o avanço de governos de direita na América Latina.
Segundo levantamento citado por ele, nos primeiros dois anos de novos governos na região, os retornos dos investimentos em dólares teriam ficado próximos de 16% quando partidos de esquerda chegaram ao poder, enquanto governos de direita apresentaram retorno médio de aproximadamente 37%.
O analista ressalta, no entanto, que esses dados históricos não garantem o comportamento futuro dos mercados e que as políticas efetivamente adotadas pelo próximo governo serão determinantes.
No cenário eleitoral brasileiro, Sharma afirmou que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro poderia provocar inicialmente uma reação positiva dos investidores, baseada na expectativa de políticas econômicas mais alinhadas ao mercado.
Por outro lado, ele avalia que uma eventual reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderia provocar uma reação inicial negativa, principalmente devido às preocupações relacionadas à situação fiscal do país.
O estrategista pondera, porém, que o comportamento posterior do mercado dependerá das medidas adotadas pelo governo eleito.
Situação fiscal preocupa
Para Sharma, um dos principais desafios brasileiros é colocar as contas públicas em uma trajetória considerada sustentável.
O analista avalia que o cenário internacional mudou e que investidores estão prestando atenção cada vez maior ao nível de endividamento dos países.
Segundo ele, eventual aumento excessivo de despesas públicas poderia provocar saída de capitais e pressionar ainda mais uma economia que convive com juros reais elevados.
Na avaliação do estrategista, independentemente de quem vencer a eleição presidencial, o próximo governo terá pouca margem para adotar uma política fiscal considerada irresponsável.
O Congresso Nacional também deverá exercer papel importante nesse cenário, já que a composição da Câmara dos Deputados e do Senado influencia diretamente a aprovação de medidas econômicas.
Brasil tem vantagens para os próximos anos
Apesar dos riscos, Sharma enxerga oportunidades importantes para o Brasil nos próximos cinco anos.
Entre os fatores favoráveis estão a produção de commodities, o crescimento da importância brasileira no mercado internacional de petróleo, a disponibilidade de energia e o desenvolvimento do setor tecnológico.
O Brasil concentra cerca de 40% dos investimentos em tecnologia da América Latina e já criou mais de 20 empresas avaliadas em pelo menos US$ 1 bilhão, conhecidas como unicórnios.
O país também investe aproximadamente 1,2% do Produto Interno Bruto (PIB) em pesquisa e desenvolvimento.
Para Sharma, a disponibilidade de energia pode favorecer ainda a instalação de centros de processamento de dados e projetos relacionados à inteligência artificial.
Entretanto, ele alerta que qualquer deterioração significativa das contas públicas poderá limitar essas oportunidades, especialmente em um momento de aumento do custo internacional do capital.
Dependência da China também preocupa
Outro alerta apresentado pelo estrategista envolve a crescente dependência comercial brasileira em relação à China.
Sharma considera arriscado o Brasil depender excessivamente do crescimento chinês para sustentar sua própria expansão econômica.
Segundo ele, a China enfrenta problemas estruturais, como envelhecimento e redução da população, alto endividamento e enfraquecimento da demanda interna.
O estrategista avalia ainda que Pequim tem buscado ampliar suas exportações diante da dificuldade de absorver internamente toda a produção industrial do país.
Esse cenário, segundo Sharma, pode gerar impactos para países que competem com produtos chineses e para economias fortemente dependentes da demanda do país asiático.
Inteligência artificial pode estar em uma bolha
Sharma também analisou o forte crescimento dos investimentos mundiais em inteligência artificial.
Segundo ele, aproximadamente US$ 2,5 trilhões estão sendo destinados globalmente à construção de infraestrutura relacionada à IA, montante superior a 2% do PIB mundial. As grandes empresas americanas de tecnologia, conforme o analista, respondem por cerca de US$ 800 bilhões desses investimentos.
Embora considere a inteligência artificial uma tecnologia capaz de provocar mudanças profundas na economia, Sharma acredita que o setor apresenta características de uma bolha financeira.
Ele cita quatro fatores utilizados para identificar esse tipo de fenômeno: valorização excessiva, concentração, endividamento e investimento acima dos níveis considerados sustentáveis.
O analista afirma, entretanto, que mesmo uma eventual correção do mercado poderia deixar como legado infraestrutura e tecnologias produtivas.
Para Sharma, o Brasil possui condições para aproveitar as mudanças econômicas globais nos próximos anos, mas o resultado dependerá principalmente das decisões fiscais, das reformas e da capacidade do próximo governo de preservar a confiança dos investidores.






