EUA planejam ampliar operações militares contra narcotráfico na América Latina; Brasil fica fora de coalizão

Foto: WH

Os Estados Unidos planejam ampliar para operações terrestres a ofensiva militar contra organizações envolvidas com o narcotráfico na América Latina. A nova etapa da estratégia deverá ocorrer em parceria com governos da região que autorizaram ou negociam ações conjuntas com as forças norte-americanas.

O avanço foi sinalizado pelo secretário de Guerra dos Estados Unidos, Pete Hegseth, durante uma agenda no Panamá nesta semana. A proposta é utilizar recursos militares contra grupos classificados pelo governo norte-americano como organizações terroristas.

Entre os países diretamente envolvidos estão Colômbia e Equador. O Brasil, por sua vez, permanece fora da coalizão liderada por Washington.

Colômbia autoriza operações conjuntas

A Colômbia tornou-se o mais novo integrante da Coalizão Anticartéis das Américas, conhecida pela sigla A3C.

Segundo o governo dos Estados Unidos, o novo acordo prevê aprofundamento da cooperação militar entre os dois países. O Departamento de Guerra informou ainda que Colômbia e Estados Unidos assinaram um acordo relacionado a acesso, bases e sobrevoo.

Durante encontro no Panamá, Hegseth afirmou que a Colômbia autorizou operações militares conjuntas destinadas ao combate de organizações consideradas terroristas.

Questionado sobre a possibilidade de ataques conjuntos contra grupos como o Exército de Libertação Nacional (ELN) e dissidências das antigas Farc, o secretário confirmou que o assunto havia sido discutido com autoridades colombianas.

A administração norte-americana defende que grupos classificados como organizações terroristas poderão ser considerados alvos militares quando houver cooperação com o governo do país onde estejam localizados.

Equador já teve operação conjunta

A estratégia não começa do zero. O Equador já realizou ações militares em parceria com os Estados Unidos contra organizações ligadas ao tráfico de drogas.

Em março, forças dos dois países participaram de uma operação próxima à fronteira entre Equador e Colômbia. A ação utilizou recursos como aeronaves, helicópteros, embarcações e drones contra um acampamento atribuído a narcotraficantes.

Relatório oficial do governo norte-americano também registra que o Equador realizou operações conjuntas contra organizações designadas como terroristas, enquanto outros países da região ampliaram a cooperação militar com Washington.

EUA já realizam ataques no Caribe e no Pacífico

A intenção de ampliar as ações terrestres ocorre depois de meses de ataques militares norte-americanos contra embarcações suspeitas de transportar drogas pelo Caribe e pelo Oceano Pacífico.

As ações integram a Operação Southern Spear, criada para interromper o fluxo de drogas associado a organizações classificadas pelo governo dos Estados Unidos como terroristas.

Um relatório oficial encaminhado ao Congresso dos EUA mostra que, até 30 de junho de 2026, pelo menos 66 embarcações haviam sido atingidas desde o início da ofensiva, com 218 pessoas mortas ou presumidamente mortas.

Entre abril e junho, foram registrados ataques contra pelo menos 19 embarcações, resultando em 56 mortos ou presumidamente mortos.

As ações militares têm provocado questionamentos sobre os limites jurídicos do uso da força contra suspeitos de narcotráfico. Especialistas e críticos citados por veículos internacionais contestam o enquadramento dessas operações nas regras aplicáveis a conflitos armados, enquanto o governo norte-americano sustenta que os grupos designados como terroristas representam ameaça à segurança dos Estados Unidos.

Coalizão reúne países das Américas

A Coalizão Anticartéis das Américas foi criada no contexto da iniciativa Escudo das Américas, lançada pelo governo Donald Trump.

Em março, a Casa Branca afirmou que militares e representantes de 17 países haviam aderido à iniciativa. O documento assinado por Trump defende a mobilização e o treinamento das Forças Armadas de países parceiros para desmantelar cartéis e impedir que essas organizações controlem territórios e recursos.

O grupo continuou crescendo nos meses seguintes.

No fórum realizado em 12 de agosto, no Panamá, Hegseth se reuniu com ministros e chefes militares de Argentina, Bahamas, Belize, Bolívia, Chile, Colômbia, Costa Rica, República Dominicana, Equador, El Salvador, Guatemala, Guiana, Honduras, Jamaica, Panamá, Paraguai, Peru e Trinidad e Tobago.

Brasil permanece fora da aliança

O Brasil não aparece entre os países participantes da reunião mais recente da Coalizão Anticartéis das Américas.

A posição ocorre em um cenário de divergências entre os governos brasileiro e norte-americano sobre a forma de enfrentar organizações criminosas transnacionais.

Washington decidiu classificar Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras. O governo brasileiro reagiu à medida, defendendo que o combate às facções deve respeitar a soberania nacional e rejeitando qualquer justificativa que possa abrir espaço para intervenção estrangeira.

O Brasil, contudo, não rejeita a cooperação internacional contra o crime organizado. Representantes brasileiros já defenderam colaboração em áreas como combate à lavagem de dinheiro, tráfico de armas e movimentações financeiras ilícitas, mas com as ações dentro do país conduzidas pelas autoridades brasileiras.

Não há anúncio de operação dos EUA no Brasil

Apesar da expansão da ofensiva norte-americana na América Latina e da classificação de PCC e CV como organizações terroristas pelos Estados Unidos, não há anúncio oficial de operação militar norte-americana em território brasileiro.

As iniciativas divulgadas até agora envolvem principalmente países que aderiram à coalizão e autorizaram algum nível de cooperação militar com Washington, como Equador e Colômbia.

A movimentação, porém, amplia o debate sobre segurança, soberania e o papel das Forças Armadas no combate ao narcotráfico na América Latina, principalmente diante da intenção declarada dos Estados Unidos de levar para terra uma estratégia que já vinha sendo aplicada contra embarcações no Caribe e no Pacífico.

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